Conto I
Eu sempre soube que
aqueles olhares não eram gratuitos.
As gentilezas, a
doçura...
É fácil notar o
encantamento masculino.
Via de regra, eles
não disfarçam melhor que as mulheres.
É nítido que o que
eu sentia por ele era muito mais sutil, mas não deixava de ser igualmente
especial.
Ficava um longo
período admirando seus olhos, seus cabelos, o movimento incomparável de sua
boca enquanto ele falava comigo, sua voz que havia se tornado muito mais grave
desde nosso último encontro.
Como qualquer
canceriano, era retraído em algumas emoções, então seus abraços delicados não
duravam mais que alguns instantes.
Mas adorava quando
conseguia durante alguma conversa faze-lo sorrir. Era o mais belo desafio e a
mais encantadora recompensa. Seus olhos sorriam consigo.
Em uma manhã de
inverno, seu irmão me convidou a vê-lo. Mais uma crise havia feito ele refém do
quarto por alguns dias.
Assim que entrei,
notei seu incomodo com minha presença.
- Não queria que me visse
assim- disse- Não me importo com o que você queira. É um prazer estar aqui. Engraçado, pensei insistentemente em você nesses últimos dias. Escrevi sobre seus olhos em meu diário. Senti sua falta.
- Eu também.
- Aqui estão os livros que me havia emprestado. Perdoe ter demorado tanto para devolve-los. Quase não tive tempo para ler.
- Tudo bem. Com você tem passado?
- Pensativa.
- Isso é bom?
- Talvez... E você, como tem se sentido?
- Estou melhor. Meu tio aumentou a dosagem do remédio.
Silencio.
Como era bom olha-lo
assim, deitado. Parecia indefeso. E eu estava lá com todas as ganas de cuidá-lo
da melhor maneira que houvesse.
A janela de seu
quarto estava aberta. Enfrente, havia um belo e frondoso ipê. Era inverno. Ipês
são as flores do inverno.
A coloração
arroxeada espalhava-se pouco a pouco pelos galhos da arvore e cobriria ela por
completo em poucos dias. Encobriria a casa e certamente enviariam algum
jardineiro para podá-la. Na primavera, quando suas flores começavam a cair ao
chão, devido aos fortes ventos, as flores restantes cobririam as calçadas da
rua formando um belo tapete quase proposital. A mãe natureza é mesmo uma
excelente decoradora!
Sua mãe subiu ao
quarto e avisou-nos que se ausentaria por algumas horas. Precisava visitar um
parente na vila vizinha. Deixava-nos a sós, mas com um bolo na mesa da cozinha
para que pudéssemos tomar um lanche, caso sentíssemos fome.
Agradeci gentilmente
e insinuei ir embora dentro de poucos minutos, mas ela insistiu que
ficasse por mais algum tempo e provasse
o bolo. Discursos de mães sempre me foram fatais. Algumas são capazes de
obterem tudo o que querem com seus olhos irradiando profunda dedicação. Quase
as odeio por isso.
Decido ficar um
pouco mais.
Toco sua face
rosada.
Levanto-me e puxo a
cortina. O sol começava a bater em seus olhos e suas pupilas diminuíam. Quando
se fez penumbra no quarto, sentei-me novamente na cadeira a seu lado e ele se
sentou na cama. Era preciso limitar alguns movimentos, pois vinha tendo ainda
algumas crises de tontura.
- Sente-se comigo- disse.
Levantei-me e sentei
a sua frente.
Tornei a acariciar
com a mão seu rosto, mas dessa vez ele colocou a mão dele sobre a minha.
Fiquei sem graça,
mas gostei daquilo, então entrelacei meus dedos nos seus e beijei sua mão.
- Você é muito especial, já lhe
disse?- perguntei.
- Na verdade, já.
Sorrimos.
Ele começou a
discorrer sobre filosofia grega, e começava a falar sobre a vida e o amor do
ponto de vista de alguns filósofos . Tudo o que me vinha a mente era se eu
deveria ou não sustentar o assunto. Tudo o que queria naquele momento era que
Platão, Sócrates e Aristóteles ficassem bem longe daquele quarto.
Toquei seus lábios
com os dedos, suave e delicadamente. Imitei o contorno com meu indicador,
repetindo o desenho duas vezes. Deslizei minha mão até seu pescoço, me inclinei
e nos beijamos. No começo, com suavidade, mas depois com feroz intensidade. O beijo
foi longo, e ao final, ele acariciou minha testa.
Me abraçou com muita
força. Seu corpo era caloroso e seu abraço, um abrigo. Beijei seu pescoço antes
que ele me soltasse. Permaneci envolvida naquele abraço perfeito, enlaçada como
um dedo a um anel. Roçava meu cabelo em sua orelha, o que sabia que fazia com
que meu amigo me desejasse ainda mais. Sentia que o princípio era a terra e ali,
era o céu.
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